terça-feira, 24 de setembro de 2019

ESPERANÇA NA COLABORAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS de DIAMANTINO LOURENÇO RODRIGUES DE BÁRTOLO

ESPERANÇA NA COLABORAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: A capacidade do ser humano para o bem e para o mal é inesgotável. Atualmente atravessam-se tempos extremamente difíceis. As incertezas são muitas. As soluções defendidas pelas diversas teorias não param de se desenvolver e, entretanto, vai-se caminhando para um certo abismo económico-social e bélico. Este primeiro quarto do novo século notabiliza-se por uma crescente desigualdade entre as pessoas. 
Próximos do final da secunda década do século XXI, governantes e políticos discutem as suas teses, chegando-se ao limite do absurdo que consiste em retirar direitos adquiridos, alguns dos quais conseguidos em regimes ditatoriais. Parece um pesadelo, mas de facto, e infelizmente, é a realidade que bate à porte de todos, mas que faz sofrer de forma atroz os mais carenciados. O ano de 2013 já permanece na história como sendo aquele em que os pobres ficaram paupérrimos, e os ricos continuam com o melhor que a vida sempre lhes proporcionou.
Ao longo dos ciclos governativos, a alternância do poder, num regime democrático, é uma característica que cria novas expectativas, na medida em que várias e aliciantes são as promessas feitas por aqueles que pretendem chegar ao Poder.
Será uma situação para se concordar, ou não, segundo a qual: «(…) não tome nada por adquirido e não acredite em tudo o que lhe dizem. (…). Reconheça a impermanência, o sofrimento e a ausência de ego ao nível do quotidiano e seja inquisitivo a respeito das suas reacções. Descubra por si mesmo a paz e se é ou não verdade que a nossa situação fundamental é alegre.» (CHODROM, 2007:87).
A vida difícil que tem atingido a classe mais desfavorecida não permite, de facto, acreditar naqueles que criaram expectativas, que venderam ilusões e que agora são os primeiros a levantar a espada da injustiça.
É claro que não se pode atribuir, em absoluto, culpas a um só e determinado sistema governativo, e muito menos a uma pessoa. É toda uma conjuntura mundial que afeta as populações, mas também é verdade que tal conjuntura se poderá ficar a dever a grandes grupos económico-financeiros, através da agiotagem e da especulação.
É verdade que se derrubam regimes ditatoriais, porque não cumprem, minimamente, os direitos humanos, fazem-se opções a favor ou contra determinadas situações políticas, grupos pacifistas e terroristas. Tomam-se medidas para combater a transação de determinados produtos como a droga, armas, corpos humanos, etc.
Há que fazer muito mais, no sentido de identificar e punir todos aqueles que criam crises mundiais, que, fraudulentamente, enviam para o desemprego milhões de trabalhadores em todo o mundo. Esta é uma verdadeira guerra que rapidamente urge ganhar sob pena de uma explosão social.
Compreender as razões que levaram pessoas e grupos a determinadas atitudes, por vezes é difícil se, como se sabe, a existência humana é muito curta, não chega, sequer, para se desfrutar de tudo o que se acumulou, com a agravante de que os potenciais herdeiros, poderão não valorizar, verdadeiramente, o que foi angariado e, pior ainda, quando tais impérios patrimoniais foram adquiridos por vias ilegais, ilegítimas e injustas, à conta da exploração das pessoas. São absurdos, e, como tal, não têm explicação compatível com a dignidade humana.
O mundo, aqui representado na sua população, não é igual para todos porque, infelizmente, a capacidade do ser humano tem-se orientado para o mal, designadamente nas suas dimensões sociais e culturais, sim, porque também se trata de uma cultura de apoio aos mais desfavorecidos, de uma cultura de redistribuição das riquezas naturais e produzidas, de uma cultura de solidariedade.
A cultura que envolve valores sociais não está verdadeiramente nítida nos Estados e nos Governos. Fala-se, apenas, em Estado Social, mas é, justamente, nos benefícios sociais que mais se corta quando é preciso reduzir despesas. Não existe, nitidamente, uma preocupação social, precisamente, porque é uma classe sem força, aquela que mais precisa de tais benefícios. São os mais fracos a suportarem as injustiças.
Apesar de tantas e tão difíceis situações que atormentam a humanidade, sempre haverá uma janela, ainda que entreaberta, para a esperança, em melhores tempos, porque é necessário acreditar na capacidade de resolução, na boa-vontade e determinação dos governantes, das novas gerações para, humildemente, assumirem os erros atuais e resolverem as situações sociais mais deprimentes.
Acredita-se nas potencialidades dos jovens e também não se descura algum receio na tomada de certas decisões. Dir-se-ia que esperança e receio podem andar de mãos dadas, porque o futuro é sempre incerto em quaisquer circunstâncias.
Na verdade: «A raça humana é extremamente previsível. Um pequeno pensamento surge, entra numa escalada e, sem que tenhamos a noção do que nos atingiu, vemo-nos apanhados pela esperança e pelo medo.» (Ibid.70).
A situação mundial já era no final da primeira década (2010) deste novo século) muito complexa, repleta de incertezas, de medos quanto ao futuro: como vai evoluir o emprego/desemprego? Como vão sobreviver os reformados com pensões exíguas? Haverá dinheiro para, não só aumentar, como também pagar tais pensões? E a saúde, com a necessária assistência médica e medicamentosa, que caminho irá tomar? A educação e formação profissional manter-se-ão com objetivos de melhorar a escolaridade e o profissionalismo da população? Enfim, é todo um conjunto de questões que atormentam os cidadãos, que se preocupam com o futuro.
Ao ser humano, enquanto pessoa de deveres e direitos, não se lhe pode exigir, quase permanentemente, que cumpra deveres, principalmente fiscais, não se lhe oferecendo nada em troca, nem sequer a garantia de um futuro tranquilo, uma qualidade de vida que lhe é devida, depois de um longo período de contribuições, porque é no fim da linha da vida que mais precisa de apoio em todos os aspetos.
Começou-se a verificar que, incompreensivelmente, estava a acontecer o contrário em 2010-2011 e, comprova-se agora, que a situação para as maiorias mais carenciadas, pouco melhorou. Os governantes devem ter uma consciência social, mais do que uma preocupação com um qualquer deficit orçamental, com metas, com mercados. As pessoas não são números e estão primeiro.
As crises não se vencem contra as pessoas, muito menos contra aqueles que se encontram mais vulneráveis, em situações-limite, de quase sobrevivência vegetativa. As crises vencem-se com a solidariedade de quem tem poderes decisórios, meios e vontade de ajudar. As crises vencem-se com austeridade, sobriedade e responsabilidade social, abdicando de privilégios que a esmagadora maioria da população não tem. Por isso se acredita nos jovens, na sua generosidade e na ausência de vícios egoístas e materialistas.
Importa, nesta reflexão, destacar-se a esperança que as novas gerações podem trazer à resolução dos problemas que atingem o mundo. Com efeito, a fatura que eles têm de pagar, por culpa dos erros cometidos pelos seus antepassados, será suficiente para não prosseguirem idênticas práticas. Além da sua própria formação que, indiscutivelmente, será bem melhor, desde logo em vários domínios culturais, técnicos, científicos, axiológicos e profissionais.
A participação dos jovens, integrados em equipas de colegas maduros e experientes, todos dotados de valores essenciais à dignidade humana, pode ser a chave para o sucesso na resolução das crises que, periodicamente, atingem populações inteiras. Não se deve recear a inovação dos jovens como estes não devem depreciar a sabedoria dos mais velhos. É necessário escolher os melhores, aqueles que, de facto, se preocupam com o bem-comum.
Certamente que os mais velhos têm sempre uma palavra neste processo de saída das crises como devem ter no relacionamento com os mais jovens. Na verdade: «O ser social tradicional respeita naturalmente os mais velhos e aspira a conformar-se com as maneiras de ser e de agir transmitidas pelas gerações. Não se esforça de modo algum por ser singular. Tem a impressão de fazer parte de um corpo social do qual não poderá afastar-se sem perder a razão de ser. A noção de pessoa, tal como a entendemos hoje em dia, não faz parte do seu universo.» (ANGERS, 2003:68).
Cabe, portanto, aos jovens esta humildade de saber escutar os mais velhos e estes têm a obrigação de compreenderem as dificuldades daqueles, sem se imporem com sabedorias, experiências e maturidades que, nem sempre, correspondem à verdade. Humildade de ambas as partes é a chave do sucesso.

BIBLIOGRAFIA 
ANGERS, Maurice, (2003). A Sociologia e o Conhecimento de Si. Uma outra maneira de nos conhecermos graças à Sociologia. Tradução, Maria Carvalho.


CHODRON, Pema, (2007). Quando Tudo se Desfaz. Palavras de coragem para tempos difíceis. Trad. Maria Augusta Júdice. Porto: ASA editores.


DIAMANTINO LOURENÇO RODRIGUES DE BÁRTOLO
02º Membro Correspondente AIL. Brasil/Portugal.

Verônica Franco de MARVYN CASTILHO BRAVO

VERÔNICA FRANCO

“A mulher não existe.”
Ecoa Lacan em uma fala...
A fêmea no jazer algente,
No feminicídio que se propala.

A mulher está no erro,
Da palavra a ensejar,
No desejo do Outro,
E no estrupo no íntimo a inumar.

Está em Maria, Kali, Isís,
Verônica Franco e na poesia da sua íris,
No cavo do útero nenhures.

Na silente lágrima amortalhada,
No cenho da marafona na noite desvelada,
E no debalde horizonte algures.

Em IX de agosto de MMXVIII. E. V.
Dies mercurii

MARVYN CASTILHO BRAVO
Cadeira n.67. LÚGUBRE

domingo, 1 de setembro de 2019

CONHEÇA UM POUCO MAIS SOBRE NOSSO PATRONO JEAN DE SALISBURY

João de Salisbury (Old Sarum, Salisbúria, Inglaterra, c. 1115-1120 — Chartres, França, 25 de Outubro de 1180) foi um dos mais brilhantes pensadores do seu tempo. Ao longo da sua vida desempenhou importantes cargos no seio da Igreja Católica. Foi também autor de importante pensamento político, registado em obras como “Policraticus” e “Metalogicon”, assim como teorizador do ensino.
Nascido num contexto modesto, do qual pouco se conhece, inicia os seus estudos em Salisbury. No ano de 1136, parte para França, onde estudou e contactou com algumas das principais personalidades do seu tempo. Entre outros, Pedro Abelardo e Guilherme de Conques. Em 1148, participa no Concílio de Reims, onde encontra-se com Bernardo de Claraval. No mesmo ano, regressa a Inglaterra, onde virá a desempenhar as funções de secretário dos arcebispos de Cantuária Teobaldo de Bec (1150-1161) e do seu sucessor Tomás Becket (1161-1170). Em 1163, caindo em desfavor do monarca Henrique II de Inglaterra, parte para França. Em 1176, torna-se bispo de Chartres, cargo que ocupará até ao final dos seus dias.

PRIMEIROS ANOS E EDUCAÇÃO
Estudou os primeiros anos em sua cidade natal, indo posteriormente para a Universidade de Paris (que na época se chamava École Cathédrale de Paris), onde teve aulas com Pedro Abelardo, continuando seus estudos de lógica sob a direção de Robert de Melun (1100-1167), e gramática orientado por Guillaume de Conches (1080-1150) em 1148.
            Seus vívidos relatos dos professores e alunos lhe forneceram os mais preciosos fundamentos dos seus primeiros dias na Universidade de Paris. Com o afastamento de Pedro Abelardo, João continuou os seus estudos com Alberico de Rheims (1085-1141). Ricardo L'Evêque († 1181), bispo de Avranches e discípulo de Bernardo de Chartres (1130-1160), também foi seu professor de gramática. Os ensinos de Bernardo se distinguiam particularmente pela sua pronunciada tendência platônica, e também pela importância dedicada aos maiores escritores latinos. A influência dos clássicos latinos é perceptível em todas as obras de Salisbury.
            Por volta de 1140 ele estava em Paris estudando teologia com Gilbert de la Porrée (1070-1154), depois com o teólogo e filósofo inglês Robertus Pullus (1080-1150) e finalmente assistiu aulas de teologia com Simon de Poissy (fl. 1125-1145). Em 1148 ele se hospedou na Abadia de Montier-la-Celle, na Diocese de Troyes, com seu amigo Pedro de La Celle (1115-1183). No mesmo ano participou do Concílio de Rheims, presidido pelo Papa Eugênio III, e provavelmente foi apresentado por Bernardo de Claraval (1090-1153) a Teobaldo de Bec (1090-1161), arcebispo de Cantuária, sob cujo patrocínio retornou para a Inglaterra por volta de 1153, tendo passado algum tempo em Roma como secretário do papa inglês Adriano IV, Nicholas Breakspear.

SECRETÁRIO DO ARCEBISPO DE CANTUÁRIA
Nomeado secretário de Teobaldo de Bec, era frequentemente enviado em missões para a sede papal. Durante essa época ele compôs suas maiores obras, publicadas quase certamente em 1159, o Policraticus, sive de nugis curialium et de vestigiis philosophorum e o Metalogicon, escritos inestimáveis como fontes de informações relativas ao tema e forma da educação escolástica, e notáveis pelos estilos apresentados e tendência humanística. A ideia de contemporâneos em pé nos ombros dos gigantes que se tinha na Antiguidade aparece pela primeira vez nesta obra. O “Policratus” também derrama luz sobre a decadência dos modos da corte do século XII e a frouxa ética da realeza. Depois da morte de Teobaldo, em 1161, João continuou como secretário de Tomás Becket (1118-1170), e tomou parte ativa nas longas disputas entre o primaz e seu soberano, Henrique II, que considerava João agente papal.
Suas cartas lançam luz sobre a luta constitucional que abalava a Inglaterra. Em companhia de Becket, retirou-se para a França durante o período de descontentamento do rei; retornou com ele em 1170, e estava em Cantuária na época do assassinato de Becket. Nos anos seguintes, durante os quais ele continuou influente na situação de Cantuária, mas com data imprecisa, ele escreveu A Vida de Becket.

BISPO DE CHARTRES
Em 1176, Salisbury se tornou bispo de Chartres, onde passou o resto da sua vida. Em 1179 ele participou ativamente do Terceiro Concílio de Latrão. Ele morreu em Chartres (ou perto dessa cidade) no dia 25 de Outubro de 1180.

ERUDIÇÃO E INFLUÊNCIAS
Os escritos de João de Salisbury são excelentes para esclarecer o estágio literário e científico da Europa Ocidental do século XII. Embora ele tivesse o domínio total da nova lógica e da retórica da arte do raciocínio adquirido na universidade, os pontos de vista de Salisbury apresentam uma inteligência cultivada e brilhantemente aquinhoada em assuntos práticos, opondo-se aos extremos tanto do nominalismo como do realismo considerando-os senso prático comum. A sua doutrina se constitui numa espécie de utilitarismo, com forte inclinação para o aspecto especulativo em relação ao cepticismo literário de Cícero, por quem ele tinha incontida admiração e em cujo estilo se espelhou para criar o seu próprio. A sua visão de que o objetivo da educação era moral, e não apenas intelectual, tornou-se uma das principais doutrinas educacionais da civilização ocidental, mas a sua influência será mais perceptível, não em seus contemporâneos imediatos, mas na visão de mundo do humanismo renascentista.
Dos escritores gregos, a princípio, parece não ter ele conhecido nada, e muito pouco nas traduções. O Timeu de Platão, em versão latina traduzida por Calcidius[3] chegou ao seu conhecimento e dos seus contemporâneos e predecessores, e é provável que ele tenha tido acesso às traduções de Fédon e Menon. De Aristóteles ele possuía todo o Organon em latim; ele é, na verdade, o primeiro dos escritores medievais de renome a conhecê-la inteiramente.
Foi, ao lado de Hugo de São Vitor, Anselmo de Cantuária e Pedro Abelardo, um dos grandes responsáveis pela transformação ocorrida no século XII com relação ao modo como se encarava o conhecimento e a filosofia ao fim da Idade Média.

OBRA
O essencial do seu pensamento encontra-se em Policraticus (1159), embora esta não esgote a sua produção intelectual. Composta ao longo de anos, encontra na política de Henrique II de Inglaterra a motivação para a terminar. Tece-a, como um aviso, procurando inspirar propósitos morais e transmitir ensinamentos éticos à política e sociedade de corte que acreditava estarem a subverter os fundamentos éticos e religiosos do reino. De forma geral, propõe uma ordem social que busque a coexistência pacífica dos poderes temporal e espiritual.

POLICRATICUS
Composto em oito livros, João de Salisbury concentra a sua reflexão política nos IV, V e VI livros. Estilisticamente, apresenta um carácter humanista, sobretudo pela convocação de fontes quer cristãs quer pagãs. Num contexto de centralização do poder das monarquias da Cristandade Ocidental, destacam-se as suas ideias de limitação do mesmo pela lei. A estas associa a metáfora orgânica do governo como um organismo vivo, na qual faz corresponder a cada parte do corpo humano os elementos da sociedade (pés-trabalhadores; mãos-combatentes; barriga-administração/fazenda; coração-conselho; cabeça-príncipe; alma-Igreja), procurando explicar a necessidade do correcto funcionamento de cada um para a harmonia do todo. Outra das questões fulcrais é o tiranicídio, enquanto ferramenta para o restabelecimento da ordem sempre que esta seja deturpada por responsabilidade do monarca.

CITAÇÕES DE JOÃO DE SALISBURY:
“Um rei iletrado é um jumento coroado”.
“Nós somos anões em pé sobre os ombros do gigantes”.

RESUMO DAS OBRAS
1.Opera omnia, editor J. A. Giles, Oxford 1848, in Patrologia Latina, 199 lire en ligne.
2.Policraticus (1156), editor K. S. Keats-Rohan, Turnhout, Brepols, 1993.
3.Metalogicon (v. 1175), editor J. B. Hall, 1991. Trad. an. D. D. McGarry, The Metagogicon, Berkeley, University of California Press, 1955.
4.Lettres, traduzido por W. J. Millor e outros, As cartas de João de Salisbury, Oxford, Clarendon Press, 1986, 2 t.


Placa da cidade de Chartres em homenagem a João de Salisbury.
(c. 1115-1180). Humanista, filósofo, bispo, diplomata e historiador inglês.