terça-feira, 20 de outubro de 2020

VOCÊ SABIA por PAULO HENRIQUE MELO SILVA SALES

VOCÊ SABIA - Bula papal de 1676 deu a Olinda bispo, senhor de domínio religioso tão vasto que ia à terra mineira de Paracatu. Daí, dentre as famílias mineiras mais ilustres, uma descendente de erudito cônego de Paracatu, decerto com licença especial para contrair núpcias. O fato é que, através de bispado tão extenso, Olinda exerceu uma espécie de imperialismo cultural sobre espaços até sulistas que a tornou civilizadora e educadora de outros brasileiros, além dos de Pernambuco. Olinda foi das primeiras cidades do Brasil a juntarem à importância estritamente religiosa, a intelectual, a artística, a de mestra de brasileiros e não apenas de Pernambuco ou de nordestinos, de saberes e artes. Compreende-se terem mestres e igrejas olindenses dado a brasileiros, donos de ouros e de diamantes, inspiração e refinamento para novas e suntuosas expressões de belos barrocos, já com toques tropicais, que madrugaram em Olinda. 
O mesmo se diga da literatura. A cristão novo de Olinda, Bento Teixeira, atribui-se ter escrito o primeiro poema, aparecido na América, em língua portuguesa. Em Olinda surgiram, no Brasil, os primeiros túmulos artísticos de homens bons. Túmulos quase literariamente biográficos. 
Se a literatura israelita na América é fato histórico, ter surgido no Recife, lembre-se do Recife ter sido criação intelectual de Olinda. O mesmo se recorde do teatro: os Jesuítas de Olinda não tardaram a promover representações teatrais. Se nas suas atividades didáticas pode-se anotar, deles, terem se inclinado a excluir a juventude de origem negra, reconheça-se, a seu favor, terem educado, em Olinda, meninos índios, ao lado dos brancos. 
As Ordens Religiosas mais ciosas de desempenhos culturais, no Brasil, como a franciscana, a Beneditina, a Carmelita, anteciparam-se em se estabelecerem madrugadora mente em Olinda. É de 1585 a fundação do primeiro recolhimento feminino dedicado a Nossa Senhora da Conceição, visando favorecer mulheres de vocações religiosas. 

Referência: Olinda 450 anos 
#TUDOPELACULTURA



PAULO HENRIQUE MELO SILVA SALES
Cadeira n.113. O Renascimento.

MENTIRA QUE ENTRETÉM por Leandro Emanuel Pereira

Dou por mim a praguejar sozinho, indignado com as injustiças verificadas em vários pontos do globo. Mas a certa altura percebo que tenho vestida uma t-shirt que me custou dois euros, produzida num país que não respeita a vida humana, bem como os direitos dos trabalhadores, logo, a minha bússola moral ativa a minha consciência, fazendo-me sentir culpado por ceder às demandas do capitalismo. Sendo assim, para atenuar a minha culpa, escrevo um post na Internet, onde denuncio esta barbárie. Eis que me lembro, que para eu ter a acesso a um computador com um preço que seja consonante com os meu rendimentos, crianças no Congo são perfidamente exploradas em minas de coltan. 

Quanto mais aprofundo a reflexão, mais tenho a certeza que a conivência verificada neste processo diz respeito a todos nós, usuários de toda a panóplia de artefactos que nos trazem conforto físico, mesmo que tenhamos que vender a nossa alma, ao deixarmos proliferar a nuvem negra do mal, causado por nós, humanos. 

Talvez só nos reste a esperança de um cataclismo, para que a natureza cumpra a sua vontade com a sapiente seleção natural, onde todos os constructos humanos, tais como dinheiro; status social; etc, se deparem com a crueza da génese cósmica. Depois disso, sobreviverão os homo sapiens sapiens que estiverem aptos, provavelmente aqueles que passaram privações. Se assim não for, será mais uma extinção em massa de uma espécie, como tantas outras já verificadas ao longo dos mais de quatro biliões de anos de existência do planeta terra, porque de especiais não temos nada, excepto o facto de termos a possibilidade de compreendermos a nossa real insignificância... 


– MENTIRA QUE ENTRETÉM –

Quão ampla é a surdez do egoísmo?
Quão lata se mostra a ignorância?
Quanto mais enaltecido;
Menor a consciência...

Vestimos pergaminhos;
Que exaltam a opulência;
Proclamam dividendos;
Envidam a jactância...

Paradoxalmente somos vazios;
Daquilo que preenche a alma;
Os nossos sonhos são esguios;
Ardemos em pouca chama...

Abraçamos causas veementemente;
Com vista a melhorar o mundo;
Ainda que de forma estridente;
Ignoremos a mudança singular de fundo...

Ser influencer;
De Louis Vuitton vestido;
Chorando os pobres sem vermelhecer;
Com semblante comovido...

O que mais há a ambicionar?
Não afloremos demais a realidade;
Podemos descobrir uma Siria a deflagrar;
Ou um Iémen onde morreu a humanidade...

Olhos que não veem;
Coração que não sente;
Mentira que entretém;
A fraqueza displicente...

Para mudar;
Mude-se a estrutura;
Há que obliterar;
A fuligem da amargura...



LEANDRO EMANUEL PEREIRA.
03º Membro Correspondente AIL. Brasil/Portugal.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

MEDO por Marvyn Castilho

 – MEDO –

 

Ele anula o desejo,

Não permiti amar,

Amortalha o pensar,

E mortifica o crasso pejo.

 

No seu lúrido trino, a ecoar,

Gélido átimo de torpor,

Nas langues flores das horas, sem olor,

E na sanha inefável, no íntimo a inumar.

 

Pélago umbroso, álgido e cavo,

Haurir de um licor travo,

No obliterar de cada ensejo.

 

Eflúvios dos sonhos, a esmaecer,

Ingente nevrose a intumescer,

No atro e indelével medo, em lampejo.



 MARVYN CASTILHO BRAVO

Cadeira n.67. LÚGUBRE.

Em XIII de abril de MMXX. E. V.

Dies Lunae.

DIREITOS HUMANOS: FUNDAMENTOS DA HONORABILIDADE DA PESSOA por DIAMANTINO LOURENÇO RODRIGUES DE BÁRTOLO

DIREITOS HUMANOS: FUNDAMENTOS DA HONORABILIDADE DA PESSOA: «O termo Direitos Humanos focaliza a nossa atenção nos indivíduos humanos e numa Dimensão chamada Direitos. Se os direitos nos são concedidos pelo Estado, então a reciprocidade tem de existir sob a forma de deveres, neste caso, seria mais correto, dizermos Deveres Humanos. Mas se os Direitos Humanos têm uma abrangência Universal, então o Estado Nacional deverá harmonizar-se com os demais Estados internacionais e cada um destes, conferirá àquele, a legitimidade necessária para proteger a eficácia dos Direitos Humanos, em toda a plenitude, de que resultará, a nível mundial, uma desejável situação de Paz e Progresso.» (BÁRTOLO, 2012)

Os Direitos Humanos, enquanto seleção universal de valores, são necessários, ainda que: existam diferenças culturais; que num determinado país se superiorizem alguns valores de natureza mais espiritual; enquanto noutros se dê maior atenção àqueles que defendem o bem-estar social, habitacional, educação, saúde, emprego, portanto, de âmbito material, mas essenciais para a vida.

A MISTURA QUE VENCEU por ANA MENDES

 A MISTURA QUE VENCEU


Sou filha do trigo e da foice

Feita de amor e de coice

Tenho linhas de cores no sangue vermelho,

Bandeira no peito de esperança,

Fazenda de cana e bravo gado.

Catana na roça e  copa de cachaça.

Sou melodia de pássaro e orvalho,

Natureza sem trilho nem fronteiras,

Corrente de rio que abraça as beiras,

Que rega montanhas, anharas ou floresta traiçoeira.

Pântano encantado, lago ou viveiro...

Fruta do chão, folha carnuda ou trepadeira.

Provoco desejo e paixão, por pecado ou solidão.

Nasci de semente pura e de saudade,

Beleza serena, sem vaidade.

Sou teia de aranha, garra que arranha suave,

Prendo o olhar, no balaço do teu querer.

Sou tudo aquilo que existe, sem saber como esquecer.

Que do pouco sobrou muito, da noite restou a luz,

Do sonho acordei a sorte, do amor nasci para a paz,

Da batalha sem armas das consciências, sobrou um mundo...

De sentimentos e laços que consigo trás.

Dos perdidos sem rumo, sem nobres ideais, profundos,

aconchego, amo, canto sem voz.

Sou dois, sou um, sou eu ,

Sou mulata, a mistura que venceu...

 

ANA MENDES.
04º Membro Correspondente AIL. Brasil/Suíça.

domingo, 16 de agosto de 2020

BRASIL-PORTUGAL: PROJETO DE CIDADANIA PARA POVOS SOLIDÁRIOS por DIAMANTINO LOURENÇO RODRIGUES DE BÁRTOLO

BRASIL-PORTUGAL: PROJETO DE CIDADANIA PARA POVOS SOLIDÁRIOS: O século XXI apresenta-se com grandes interrogações, quanto ao destino que a humanidade pode vir a enfrentar, e ninguém estará em condições de predizer o futuro, por muito respeito, devoção ou temor que se possa sentir por opiniões responsáveis formuladas a este propósito porque: “O destino a Deus pertence”. As principais questões, que desde há mais de dois milénios persistem, são aquelas que se prendem com a origem, o fim e o sentido para a vida. 
A formação do cidadão do século XXI, ou de um novo cidadão, deve iniciar-se por vontade própria, o que implica tomar essa decisão, caso se pretenda para as próximas gerações, nas quais se incluirão os jovens descendentes, uma vida verdadeiramente humana, sem distinção de deveres e de direitos, na paz, na segurança, na propriedade privada, na liberdade, qualquer que esta seja e em todos os aspetos pelos quais as pessoas se possam realizar com dignidade, com elevação e autoestima. Todos, sem exceção: governantes e governados, devem decidir o que pretendem para o futuro próximo: implementar as medidas; atribuir os meios; exigir responsabilidades face aos resultados previstos e não conseguidos. 
O atual Homem-Cidadão considera-se, hoje, 2017, o agente mais importante em todo o processo socializador em qualquer sociedade, porque da sua preparação, vontade e intervenção depende a atuação dos restantes participantes, e porque estes são compostos por homens e mulheres, logo, os contributos individuais, formais ou informais, destes indivíduos, são necessários para o bom êxito de qualquer programa de educação e formação do cidadão. 

ESPERANÇA por Marvyn Castilho

ESPERANÇA

 *

Lufada de tépido alento,

No atro andejo algente,

No desvelar do ensejo dolente.

*

Estertor deixado ao silamento.

Quando na existência a dolência obliterar,

Meu langue ser ela vai abarcar.

*

Em um alvorecer de uma noite gélida.

*

E no epílogo da desdita silenciada.

*

MARVYN CASTILHO BRAVO

Cadeira n.67. LÚGUBRE.

Em XXXI de março de MMXX. E. V

Dies martis.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

AMIGO IGNORANTE OU INIMIGO SÁBIO: QUAL PREFERIR? por DIAMANTINO LOURENÇO RODRIGUES DE BÁRTOLO

AMIGO IGNORANTE OU INIMIGO SÁBIO: QUAL PREFERIR? Se se partisse de duas premissas, segundo as quais: a primeira, o amigo “ignorante” que pode conduzir a situações muito difíceis, precisamente porque sendo amigo, nele acreditamos e nos quer bem; a segunda, que poderá induzir-nos numa outra situação, que talvez leve o nosso inimigo sábio a envolver-nos, através da sua sabedoria, eventualmente astuta e maligna, se for o caso, em situações, igualmente perversas, embora também nos possa dar indicações para a nossa própria autodefesa. 
O conceito de amizade, quando implica valores como: lealdade, solidariedade gratidão, reciprocidade, humildade, cumplicidade e entrega, entre duas pessoas que verdadeiramente se querem bem, não é fácil de se destruir, embora, não se desconheça que, o amigo de hoje pode ser o maior inimigo de amanhã e, nesse sentido, tendo obtido conhecimentos privados e até íntimos, do que até então era amigo, os possa utilizar, já na qualidade de inimigo, contra aquele que até então foi amigo. 
A amizade, fundada no verdadeiro “Amor-de-Amigo”, não será fácil de destruir, os amigos que assim se tornaram, por via deste vínculo mais forte, estarão sempre disponíveis para se ajudarem e, mesmo que sejam “ignorantes”, é preciso saber em que domínio são “ignorantes” para, entre eles, se aperfeiçoarem e adquirirem os conhecimentos necessários e assim, no futuro, evitarem erros e não se prejudicarem. 
O amigo verdadeiro, mesmo “ignorante”, quando pela sua “ignorância”, conduz o outro amigo, a situações complicadas, ele é o primeiro a assumir as consequências, a reparar o erro, a oferecer o “ombro amigo”, a desculpar-se e a revelar toda a sua boa-fé. Será que o inimigo “sábio” terá esta dignidade, ou, pelo contrário, não se aproveitará de uma determinada situação, que é lhe favorável, para alcançar os seus objetivos inconfessáveis? 
Por outro lado, o papel do inimigo em termos da sua evolução, pode, igualmente, ser o mesmo, isto é, o que hoje é o nosso maior inimigo, no futuro poderá ser o nosso maior amigo, por circunstâncias da vida, estratégias, interesses ou por gratidão, em função de alguma atitude praticada por aquele que, até então, era seu inimigo. Haverá pessoas assim, certamente. 
Em todo o caso, poderá existir uma espécie de relativização do ponto de vista comportamental, talvez mais do que na ótica racional. Na verdade, provavelmente, bem lá no íntimo da sua consciência, o inimigo de sempre, nunca o vai deixar de ser, mesmo que numa dada fase da sua vida se torne amigo. O contrário será, igualmente, válido para o amigo. 
Para melhor justificar a preferência pelo amigo “ignorante”, agora no sentido da amizade pura, partilha-se aqui um conceito muito interessante de amigo, com o qual estou de concordo, e que passo a citar: «Para mim um amigo verdadeiro é aquele que nos apoia, que é leal connosco, que nos respeita, que investe no nosso desenvolvimento, nos ajuda a expandir os nossos horizontes, que nos incentiva, alguém com o qual temos afinidades idênticas ou diferentes mas que nos completa, com quem partilhamos os nossos sonhos, aquele que nos elogia ou nos diz as verdades no momento certo, aquele que nos empresta um ombro para chorar, mas também aquele que nos faz rir, aquele com quem gostamos de conversar sem receio, ter um diálogo sincero e verdadeiro, aconselhar-nos, alguém que não nos cobra nada, que nunca desconfia de nós, alguém de quem temos saudades quando não está por perto, em suma que faz de nós uma pessoa melhor e feliz. Por vezes, nem sempre dizemos aos nossos amigos o quanto eles são importantes para nós… por isso quebrem esse silêncio e digam-lhes!» (FERNANDES, 2011, http://oquemevainacabecaagora.blogspot.pt/2010/11/profissao-versus-amizade.html 
Parece evidente que um amigo destes, mesmo que seja “ignorante”, é preferível a um inimigo sábio, porque, em bom rigor, com aquele amigo podemos contar, sempre, nos bons e nos maus momentos, é aquela pessoa que sincera e frontalmente nos diz, no momento certo, quantas vezes, as verdades que não queremos ouvir, mesmo que proferidas pela boca do tal amigo “ignorante”, mas que nos quer bem e, ainda que por vezes nos magoe, ele é sincero, preocupa-se connosco, com a nossa reputação e bem-estar. 
E o inimigo, como atua ele para atingir os seus fins? Provavelmente com premeditação, astúcia, utilizando argumentos que nos seduzem e nos conduzem para situações verdadeiramente inimagináveis, das quais não sairemos, justamente porque para lá fomos conduzidos pelo tal inimigo sábio. Este inimigo sábio, (quantas veze disfarçado de amigo) possivelmente, não dá a “cara”, poderá, inclusivamente, agir sob a capa da simpatia, da subserviência, da bajulação hipócrita, colhendo para si o fruto que é de outros. 
E se a seguir conduzirmos o tema para o plano do “Amor-de-Amigo”, considerando este amigo, igualmente ignorante, uma vez mais verificamos quanto é importante termos amigos que fundamentam a sua amizade com este verdadeiro amor, o que parece não ser exequível num inimigo sábio. Aliás, eventualmente, este inimigo “sábio” até poderá simular uma qualquer amizade e utilizar as fraquezas e fragilidades de uma pessoa, para dela extrair o que lhe convém. 
Pode deduzir-se que tal amor deve ser cultivado como um sentimento profundo, muito especial, sem reservas, obviamente traduzido nos atos compatíveis com ele. Os verdadeiros amigos, que se sentem inundados por este “Amor-de-Amigo”, devem respeitar-se dentro dos limites que, reciprocamente, se impõem, sem prejuízo dos gestos e atitudes carinhosas, reveladores de pessoas com bons sentimentos, sem quaisquer outras intenções inconfessáveis ou direcionadas para a realização de atos incomportáveis por aquele sentimento. 
A amizade, traduzida e levada às respetivas manifestações do “Amor-de-Amigo” implica, inclusivamente, passar por uma necessidade de maior proximidade, acompanhamento, atenção, carinho e consideração especiais em relação aos amigos, ditos de ocasião. Se em cada duas pessoas houvesse este verdadeiro “Amor-de-Amigo”, o mundo estaria bem melhor e a Felicidade seria possível. 
Acredita-se que será difícil, por vezes, confiar em certas pessoas e, provavelmente, impraticável em relação a muitas outras. É possível compreender que, em muitas situações, um homem ou uma mulher se possam relacionar muito bem, mesmo tendo em conta uma certa sociedade preconceituosa ou mesmo maledicente. 
O verdadeiro “Amor-de-Amigo” tem de ser superior a tudo isso. As pessoas devem, livremente, escolher os seus amigos, sem armadilhas, nem imposições, nem hipocrisias. Quando tal amor existe, com sinceridade e sentimentos puros, a entrega deve ser total e recíproca, e não uma rendição provocada por instintos animalescos. Uma dádiva comungada simultaneamente pelos amigos, mas regulada por valores que resultam da sensibilidade e da racionalidade. 
Obviamente que a defesa de uma ou de outra tese é sempre legítima, e que se respeita. Do meu ponto de vista, em boa verdade, prefiro viver com um amigo “ignorante”, porque a amizade é um valor que muito prezo, mesmo que, por vezes, seja difícil compatibilizar situações, personalidades, interesses, intromissões e outros acontecimentos que, momentaneamente, desestabilizam os amigos verdadeiros, mas que a amizade entre eles, sendo leal, solidária e recíproca, não deixa que se afastem, bem pelo contrário, os torna mais coesos e fortes, para enfrentarem as adversidades e as maledicências lançadas por outras pessoas, (os tais inimigos sábios e/ou os “amigos” hipócritas, de ocasião) contra os dois amigos e/ou um deles. 
Os amigos, quando leais, não temem colocarem-se perante certos factos, porque, “ignorantes”, ou não, sendo amigos, eles depressa se entendem, rapidamente se perdoam e, depois do perdão, a amizade como que se reforça, a coesão, entre eles, fortalece-se de tal maneira que muito dificilmente algum inimigo sábio a destruirá. Prefiro, portanto, os verdadeiros, sinceros, leais, cúmplices e transparentes amigos “ignorantes” do que os inimigos sábios, sim, porque estes nunca olharão a meios para nos derrubarem, se estiverem em causa os seus próprios interesses. 
Com os amigos, ainda que “ignorantes”, poderemos sempre contar: tanto nas horas boas; quanto nas horas más; nos desentendimentos, como nos melhores entendimentos, ou de contrário não serão amigos, porque aqui, o que está em causa, para mim, é o conceito de amigo e o de inimigo, este, como já disse, mesmo que no futuro venha a tornar-se “amigo”, provavelmente, nunca o será de verdade, porque, bem no seu íntimo, permanecerão as alegadas razões da sua anterior inimizade. 
A corroborar esta tese e de autor desconhecido, transcrevo a seguinte posição: «A amizade verdadeira está por cima das idéias ou da bagagem conceitual de cada um. Amigo ignorante não deixa de ser amigo. Não sou amiga somente de pessoas que tem escolarização ou tem maior sabedoria. A amizade não deixa de existir diante da simplicidade. Não gostaria de ter inimigo, muito menos, sábio. São verdadeiras víboras. São capazes de ir até o fim na sua malignidade, pior ainda, são sutis, astutos. Puxam tapete sorrindo pra você. Estejam longe de mim sempre. Sem dúvida, valem infinitamente mais os amigos verdadeiros, ainda que sejam “ignorantes”. Eles não me servirão de tropeço.» (THINKING, in: https://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20070418191907AAQT8RX
Finalmente, considero que a amizade da/o amiga/o dita/o “ignorante” poderá incluir-se num amar sincero, sempre preocupado com o bem do amigo amado, numa perspectiva de profundo respeito aqui, sem margem para dúvida, e/ou segundas interpretações, no sentido de: «desejar-lhe o melhor, olhar por ele, tratá-lo de forma excepcional, dar-lhe o melhor de nós mesmos. Significa a outra nossa alma gémea da amizade sincera, dos valores e exigências a ela associados, em suma, trata-se de um amar característico de verdadeiros e incondicionais amigos». (Cf. ROJAS, 1994)

BIBLIOGRAFIA: FERNANDES, Cecília Manuela Gil Fernandes (2010). Profissão versus Amizade. http://oquemevainacabecaagora.blogspot.pt/2010/11/profissao-versus-amizade.html 

ROBERTSON, Maria, (2007). Amor de Amigo, in: BARTOLO, http://caminha2000.com/jornal/n529/cmd2.html

ROJAS, Enrique, (1994). O Homem Light. Tradução, Pe. Virgílio Miranda Neves. Madrid: Ediciones Temas de Hoy, S.A.

Venade/Caminha – Portugal, 2020 
Com o protesto da minha perene GRATIDÃO

DIAMANTINO LOURENÇO RODRIGUES DE BÁRTOLO
02º Membro Correspondente AIL. Brasil/Portugal.

O MAR NÃO SE ABRIRÁ PARA OS JUSTOS por Leandro Emanuel Pereira

Temo o extremismo. Temo pelo facto de compreender o perigo que representa para a liberdade de cada cidadão, ainda que consubstanciando sempre que a liberdade de cada um de nós deve estar sempre alinhada com princípios morais e éticos subjacentes ao bem comum, algo que parece chocar com os agentes da modernidade líquida descontruida por Zygmunt Bauman, que em prol do propósito individual, parecem esquecer-se da empatia. Portanto, percecionamos hoje muitas pessoas que se fecham numa bolha ideológica, pois servem-se de uma panóplia de argumentos, para aguçar o seu ego em vez de promoverem uma sociedade mais justa. Juntemos a esta equação a ignorância, que nos impede de compreender a história, a ciência, e sobretudo nos prejudica a capacidade de aprender a pensar. Desta mescla de factores vemos e sentimos o que não queriamos percecionar, tal como o racismo estrutural que por vezes parece tão vivo como no período da colonização.


– O MAR NÃO SE ABRIRÁ PARA OS JUSTOS –

Poderia ter sido;
Outro negro qualquer;
Mais um que tivesse vivido;
A dor de alma que ninguém quer...

Será em vão a morte?
Mero atrofio do destino?
Quando nos alienam a sorte;
Todo o ato parece maligno...

Poderia ter sido;
Um caucasiano genérico;
Daqueles que negam o racismo;
Em tom colérico...

Os tais que ainda não descobriram;
Que partilham o genoma;
Com aqueles que odiosamente subjugam;
Terá cura a ignorância regada com soberba?

O mar não se abrirá para os justos;
Nem para os ímpios;
Mas a terra se fechará para todos;
Sem levar em conta a cor dos seus filhos...

Enquanto poeira cósmica que somos;
Materializada fugazmente;
Em seres humanos;
Pouco exploramos a causa imanente...

O preto não pode ir para a sua terra;
Se o branco não acordar;
Um só pedaço perfez a pangeia;
A sua omissão faz o mal perdurar...

O universo não sabe da nossa felicidade;
E ignora a nossa existência;
Porque então o desgaste pela materialidade;
Se o nosso tempo a cada segundo perde fulgência?



LEANDRO EMANUEL PEREIRA.
03º Membro Correspondente AIL. Brasil/Portugal.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

ÉRIKA por MARVYN CASTILHO BRAVO


– ÉRIKA –

Era uma noite lúrida...
Com um mavioso e pálido luar,
A solidão, meu ser foi abarcar,
A alcova era tétrica, como uma ermida.

Com um atro ar vicíado e algente,
Eu tinha apenas uma garrafa de tinto, como alento,
Para silenciar o meu ingente lamento,
Em um debalde epílogo para esse ensejo dolente...

Com minh' alma amofina e nua,
Precipitei um errar, pela erma rua,
Foi quando avistei uma silhueta langue.

Que desvelava um ínfero carpir, no seu olhar,
Que por amar, a existência veio a findar,
No álgido ósculo, que a morte tange.


MARVYN CASTILHO BRAVO
Cadeira n.67. LÚGUBRE.

Em VII de março de MMXX. E. V.
Dies saturni.